á anos e anos, uma das personalidades mais expressivas de Israel, o ativista e publicista Uri Avnery, nos brinda com textos magníficos, a cada Shabbat, origem dos sábados de todos, mundo afora. Neles encontramos uma das chaves mais instigantes para entender a Questão da Palestina, que centraliza toda a problemática do Oriente Médio. Líder do movimento Gush Shalom (Bloco da Paz), Avnery nasceu na Alemanha profunda há mais de 88 anos, com o nome civil de Helmut Ostermann. O que o singulariza é o fato de, desde 1948-1949, em plena guerra contra os árabes, lograr, num estalo, descobrir os verdadeiros perigos que rondariam o país com que sonhara. Não seriam os árabes que ameaçariam a ideia de Israel, mas a própria desenvoltura dos sionistas de direita em apropriar-se do sonho hebraico na Palestina.
Minha amizade com Avnery nasceu em 2006-2007. Foi no período em que morei em Jerusalém e trabalhei em Ramállah como representante do Brasil junto à Autoridade Nacional Palestina (ANP). Isso quer dizer que, diariamente, tinha de atravessar as muralhas que Ariel Sharon, um dos militares que ascenderam à condição de primeiro-ministro israelense, mandara construir, a pretexto de assegurar a tranquilidade dos seus concidadãos.
A Guerra Fria, inaugurada com a tragédia de Hiroshima e Nagasaki e a divisão da Coreia em zonas de ocupação dos Estados Unidos e da União Soviética, por ser o assunto dominante das relações internacionais, não nos permitira acompanhar de perto os desenvolvimentos da saga israelense desde 1949. Mas, dezoito anos depois, outro Israel iria expor-se: o da conquista territorial e da ocupação de um povo que, até hoje, não teve sua independência e soberania reconhecidas pelos marcos institucionais que regulam a comunidade internacional. Mais que isso, passou a ser cabeça de ponte dos vetores ocidentais no Oriente Médio, descumprindo acintosamente e sem obstáculos o que decidiam as Nações Unidas. A militarização israelense passou a ser de interesse do Ocidente, os Estados Unidos à frente, é claro, uma vez que parte de sua estratégia na região mais nervosa do planeta. Contudo, como dizia Yeshayahu Leibowitz, todos os países dispõem de um exército; em Israel, o exército passou a ter o país nas mãos.